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A pista de dança e a máquina de triturar carreiras

2 de outubro de 20255 min read

De Temper Trap a Lola Young, uma geração de artistas viu sua identidade se dissolver nas pistas. Os remixes se tornaram maiores que os criadores, sequestrando a narrativa da carreira e, no fim, a cultura eletrônica não entrega nem o rótulo do one-hit wonder — apenas o esquecimento atrás das versões de pista.

Quando foi criado décadas atrás, bem no início dos anos 70, o remix idealizado por Tom Moulton tinha um objetivo nobre: fazer com que as pessoas permanecessem mais tempo na pista dançando. Apenas para refrescar a memória, foi ele quem fez a versão remixada de “Never Can Say Goodbye” da Gloria Gaynor, sucesso no auge da disco. Pai do remix, ele conseguiu aperfeiçoar algo que já parecia perfeito — e tudo o que aconteceu a partir dali todos já sabem.

Agora dê um salto de décadas e pense nos últimos anos, com a música eletrônica sendo a vertente mais ouvida do planeta e a tecnologia disponível a todos. Parece um mundo de sonhos, mas, na verdade, cada vez mais estamos vendo esse ambiente se transformar em uma verdadeira máquina de triturar artistas, ao menos no contexto artístico.

Não precisamos ir longe: basta pensar em um dos maiores hits tocados em festivais como Tomorrowland, EDC ou Ultra Music Festival, por exemplo. Sweet Disposition, maior hit do Temper Trap, tem seu espaço, mas o remix de Axwell & Dirty South dominou tanto o inconsciente global que acabou ofuscando a própria banda. Mais assustador ainda: lançado há poucos meses, um novo remix feito por John Summit já alcançou pouco mais de 25% da quantidade de execuções que a música lançada há quase 20 anos tem até hoje.

Não é um caso exclusivo. Murder on the Dancefloor, maior hit de Sophie Ellis-Bextor, é outra música que acabou aprisionada nas pistas de dança por uma avalanche de remixes, mesmo ela sendo protagonista de projetos dançantes, como Groovejet, de Spiller, que também emplacou outro hit. Com um novo álbum lançado em 2025, a sensação de “ela ainda existe” é quase natural.

Outro caso emblemático e recente certamente é da cantora Lola Young, com a faixa Messy, remixada por Tiësto e diversos outros artistas. Quase intimista, o single de seu segundo álbum destoa do corpo que tomou, praticamente afastando o ouvinte comum da zona de interesse de sua obra. Afastada dos palcos para cuidar de sua saúde mental, a cantora inglesa certamente seguirá recebendo bem por seus remixes, mas talvez nunca consiga emplacar uma sequência dentro do ambiente artístico que idealizou.

Existem vários motivos para se estar no mundo da música: expor seus ideais, seus dogmas e, especialmente, ganhar dinheiro. Quem não gostaria? Mas será que o mundo da música pode se resumir simplesmente a isso — acertar um single? Essa pergunta poderia ser feita para alguém como Gotye, compositor e cantor multi-instrumentista belgo-australiano que emplacou a faixa “Somebody That I Used to Know” há quase 15 anos, e a música segue sendo um hit global por onde passa, sempre como remix. De lá para cá, Gotye não lançou mais nenhum disco de estúdio, embora vez ou outra siga ativo no mundo da música.

Da música “feita para as pistas” à “música adaptada para as pistas” existe um universo enorme, muitas vezes sem o menor discernimento. Um caso interessante talvez seja quando Zombie, dos Cranberries, ficou mundialmente famosa. Em entrevista, a saudosa Dolores O’Riordan não escondia o incômodo de ver uma música que falava de fome e miséria ter virado trilha de pistas de dança.

Fica difícil pensar no que vem pela frente, especialmente com o uso de IA na produção de música. Mas fica a reflexão: será que estamos acabando com os verdadeiros one-hit wonders da música ou assistindo em silêncio sua personalidade musical ser raptada em troca de views e um pouco de dinheiro? E tudo isso enquanto o mundo dança ao som de versões que não conhecem nem quem as criou.

Anderson Oliveira

Diretor de Arte há duas décadas, fã de Grateful Dead e Jeff Beck, futuro trompetista e em constante aprendizado. Bem-vindos ao meu mundo, o Mundo de Andy.

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