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Branford Marsalis e o ponto de ruptura do jazz

20 de fevereiro de 20265 min read

Herdeiro de uma das mais influentes famílias do jazz, Branford Marsalis escolheu não tratar a tradição como limite. Ao longo da carreira, ampliou o alcance do gênero, cruzando fronteiras estéticas e levando o jazz a espaços antes impensáveis.

O mais velho dos irmãos de uma família reconhecida historicamente como uma das maiores dinastias do jazz, Branford Marsalis carrega no sobrenome muito mais do que o jazz que o consagrou. Exímio saxofonista — e por vezes flautista —, o músico de 65 anos foi também responsável por fazer o impensável: desafiar a lógica purista — e até elitista — do jazz e levar essa vertente musical a outros universos. Tudo isso sem abandonar sua essência.

Para se ter a dimensão de tudo isso, é preciso dar um salto ao passado. Liderada pelo patrono da família, Ellis Marsalis Jr., a dinastia que mais revelou músicos para a cena jazzística sempre teve seu sobrenome associado à preservação do gênero, como uma postura legítima diante da tradição — ideia amplamente incorporada ao discurso de Wynton Marsalis, atualmente Diretor Artístico do Jazz at Lincoln Center, em Nova York.

Apaixonado pelo saxofone, Branford logo caminharia ao lado de gigantes nos anos 80. Sua primeira grande posição veio com a banda de Art Blakey, do lendário baterista, com quem também atuaria nos Jazz Messengers. Seus primeiros trabalhos solo, Scenes in the City (1983) e Random Abstract (1984), já apontavam para uma música mais urbana e acessível, mas tudo isso ganharia outra dimensão em 1985, quando se tornou integrante da banda de Sting e participou do álbum The Dream of the Blue Turtles. A partir daí, o jazz nunca mais seria o mesmo.

Para entender a importância desse movimento, é necessário observar o contexto da época. Em grande parte restrito aos clubes, num momento em que a MTV se consolidava como canal fundamental de difusão cultural, o jazz caminhava distante do mainstream. Com a entrada de Branford na banda de Sting, o gênero passou a ser consumido de forma indireta por um público muito mais amplo, garantindo uma visibilidade decisiva para sua permanência e evolução.

Ao lado do ex-Police, Branford se tornou uma figura notável, presente em momentos ímpares da história da música, como o Live Aid, onde também tocou com Phil Collins — para desespero de quem carregava o fantasma da banalização do jazz, algo que jamais se concretizou.

A presença de Branford abriu uma fenda simbólica na história do jazz, tornando mais comum a circulação de jazzistas por outras vertentes musicais. Não por acaso, no início dos anos 90, o rapper Guru promoveria um encontro que mudaria de vez essa relação ao inaugurar a série Jazzmatazz. Mas voltando a Branford, uma sequência de colaborações levaria o jazz a espaços até então impensáveis, como o palco do Grateful Dead.

Amigo de Jerry Garcia, Bob Weir e companhia, o saxofonista realizou diversos shows ao lado da banda, elevando o improviso a outro patamar. Tocou com Tina Turner, Bruce Hornsby e participou de praticamente toda a discografia de Sting por anos. E nem por isso abandonou o jazz.

O século XXI apenas confirmou o quanto essa abertura foi vital para a popularização do gênero junto ao grande público. Exemplos não faltam, e o encontro recente de Pharoah Sanders com o produtor Floating Points — um dos discos mais aclamados da década — reflete bem essa herança. À frente de seu quarteto, Branford segue fazendo mais do que exibir técnica impecável: mantém o jazz exatamente onde ele sempre pertenceu — em movimento, livre para ocupar qualquer espaço.

Entender Branford Marsalis como ponto de ruptura é também compreender o peso do centro a partir do qual ele se move. E esse centro passa inevitavelmente pela família Marsalis — por Ellis, por Wynton e por uma ideia de jazz que ajudou a moldar o debate cultural do gênero nas últimas décadas. É essa história que se desdobra a partir daqui.

Anderson Oliveira

Diretor de Arte há duas décadas, fã de Grateful Dead e Jeff Beck, futuro trompetista e em constante aprendizado. Bem-vindos ao meu mundo, o Mundo de Andy.

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