Quatro décadas após o lançamento, Cabeça Dinossauro, terceiro álbum dos Titãs, segue soando revolucionário. Ao atacar tudo e todos, o disco se tornou transgressor por ir na contramão da safra mais promissora do rock brasileiro. E isso não deve ser esquecido.
Ainda há o que ser dito daquele que é considerado um dos dez maiores álbuns do rock nacional? Talvez não, se pensarmos nas informações e nos hits que o compõem, mas, ao posicionarmos o disco no ponto certo da agulha do tempo, ainda é possível ver quão corajosa foi a banda ao negar seu início meteórico, avançar de forma agressiva sobre vários temas e desconstruir tudo o que vinha acontecendo até aquele momento, seja internamente, seja na convergência do rock nacional rumo à MPB e à sua nova embalagem pop.
Composto durante os últimos momentos da ditadura militar, Cabeça Dinossauro já mostrava uma guinada da banda paulista para um rock mais cru, mas, envoltos no episódio que levou dois de seus integrantes à prisão, os Titãs resolveram não atacar o sistema, mas toda a herança dele.
Detalhes de todo esse episódio citado acima podem ser conferidos no livro A Vida Até Parece uma Festa: A História Completa dos Titãs (Globo Livros), escrito pelos jornalistas Hérica Marmo e Luiz André Alzer. Porém, é preciso olhar ao redor para entender o impacto de um disco que nasceu para demolir a própria história da banda e negar a tendência da época.
Considerado o ponto de virada do rock nacional, o ano de 1986 cristalizou o sucesso de bandas como Paralamas do Sucesso (Selvagem) e Legião Urbana (Dois), mas também trouxe na bagagem um Camisa de Vênus mais polido (Correndo o Risco), assim como um Ira! emplacando seu maior sucesso (Envelheço na Cidade, em Vivendo e Não Aprendendo) antes do próprio caos. Com o rock parecendo convergir para a aura pop da MPB, Cabeça Dinossauro chegou como um carro desgovernado na contramão e se tornou o maior acerto da carreira da banda.
Com uma capa que parecia um rascunho e letras que remetiam diretamente à prisão de seus membros (Estado Violência, A Face do Destruidor e Polícia), o disco nasce com o conceito de “destruir para construir”. Nesse momento, o Titãs desmontou o próprio passado pop e o padrão de como um disco de protesto deveria soar.
Parece exagero. Por isso, é cada vez mais necessário relembrar esse detalhe para compreender a força do disco. À época, a maioria dos discos de protesto escolhia um inimigo. Este escolhe todos. Ataca, além da polícia, a igreja, a família, o consumo, o Estado, a moral e o comportamento. Não sobra ninguém confortável — nem o ouvinte. O resultado, todos nós sabemos.
Pulando quatro décadas à frente, Cabeça Dinossauro segue incomodando. Gravado quase como ao vivo e executado diversas vezes no ano de seu aniversário, suas letras continuam desafiando o conservadorismo, herança direta de anos de ditadura, mesmo tanto tempo depois.
Hoje, com três membros remanescentes, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto vão levar novamente o disco ao palco. Compreender o período em que foi lançado ajuda a entender por que devemos respeitar sua celebração.
Cabeça Dinossauro não envelheceu mal porque nunca quis ser bonito.




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