Famoso por ser a parte vital da banda de Bowie em seu último disco de estúdio, Donny McCaslin já existia muito antes do trabalho ao lado do camaleão. Em seu novo álbum, Lullaby for the Lost, ele continua tratando o jazz como uma via de curso rápido para outras paixões, como o rock.
Lembrado por nove entre dez pessoas como responsável pelo saxofone do último álbum de David Bowie, Blackstar (2016), Donny McCaslin deu ao mundo a imagem de um jovem prodígio de talento precoce e conhecimento musical vasto. Pode até ser, embora sua idade denuncie o contrário, mas quase uma década depois, ele ainda é lembrado principalmente por causa desse disco — embora sua carreira vá muito além, como já vinha acontecendo antes de uma das parcerias mais emblemáticas da última década. O que para nós começa a ganhar ares de novidade, Bowie já havia percebido muito antes de todos os seus fãs…
Lullaby for the Lost, novo álbum de McCaslin, é uma verdadeira máquina de lavar roupa. É um disco de jazz, mas de tamanha intensidade e riqueza de elementos que você precisa de silêncio total depois de passar por suas músicas. Com guitarras, batidas eletrônicas, uma bateria frenética e ruídos que se misturam com melodias, fica claro que muitas daquelas faixas poderiam estar em um disco do Nine Inch Nails. Com isso, o saxofonista deixa um recado bem dado: ele não quer ser lembrado apenas como músico de apoio de Blackstar.
De fato, McCaslin nunca foi isso. Com sete discos lançados antes de encontrar Bowie (ou ser encontrado), já mantinha em sua obra uma curva para fora do jazz, buscando uma fusão cada vez mais explícita com rock e eletrônica, cheia de improvisação e grooves intensos. Em Lullaby for the Lost, seu sax ganha voz e grita como em uma banda de rock, garantindo um lançamento do mais alto nível.
Como um mar revolto alternando uma certa calmaria, o disco surpreende quando sua intensidade passa a ditar o ritmo. Para quem busca algo mais tradicional e moderno, Solace e Stately representam bem essa cara do jazz moderno que virou tendência nos últimos anos, mas é quando Blond Crush surge no repertório que McCaslin mostra a que veio, assim como a caótica Tokyo Game Show, uma das melhores faixas do disco.
Mesmo quando tenta soar minimalista, como em Celestial, o disco consegue mostrar que é em meio ao caos que se encontra o silêncio. E ainda assim consegue fixar melodias em meio ao tsunami sonoro que propõe. Ao fim de Mercy, a sensação é que o mergulho em águas profundas deixa suas marcas, assim como a sensação de que não ouvimos somente um disco de jazz.
Donny McCaslin aponta para o futuro em seu álbum. E o cara que é lembrado por ter sido parceiro de Bowie se torna uma espécie de navegador de águas turbulentas. É preciso coragem para isso.





What do you think?
Show comments / Leave a comment