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Ice Cube e a transformação do rap em obra audiovisual

13 de janeiro de 20265 min read

Com o lançamento de Man Up (2024), sequência direta de Man Down, Ice Cube reafirma de forma categórica um princípio que sempre guiou sua obra: a música como imagem. Pioneiro ao levar a linguagem cinematográfica para dentro do Hip-Hop, o rapper ajudou a transformar o rap em uma experiência audiovisual completa, ampliando o alcance, o impacto e a força política de suas ideias.

Vertente musical que mais se incorporou à cultura pop neste século, o Hip-Hop é, de longe, responsável pela forma como a música se moldou ao ambiente onde é produzida. Se lá nos anos 80 ser um rapper era olhar para a câmera e expor as agruras da sociedade, com Ice Cube a música se transformaria em relato visual e em uma crônica urbana, com encenação do cotidiano. E isso se tornaria fundamental para sua expansão, até mesmo para quem não é dos seus maiores fãs.

Um dos fundadores do lendário N.W.A., Ice Cube fez parte do line up estelar que garantiu Straight Outta Compton como um dos principais discos do gênero até os dias atuais, iniciando sua carreira solo um ano depois de sair do grupo, em 1989. AmeriKKKa’s Most Wanted, disco que redefiniria não o gênero, mas a forma como ele é mostrado ao público, especialmente com videoclipes como Endangered Species.

O que acontece em 1991 é a materialização das ideias de Ice Cube, quando atuou pela primeira vez no cinema, com o filme Boyz n the Hood. Fã do blaxploitation, vertente com filmes criados por e para o público negro, com protagonistas negros, que colocam a cultura urbana, o poder e o conflito racial no centro da narrativa, Ice Cube levou para a sua música esse olhar cinematográfico no álbum The Predator, de 1992.

Foi nesse álbum que o single It Was a Good Day revolucionou praticamente toda a estética do Hip-Hop em tempos de MTV. Ao retratar um raro dia de paz, mostrando o cotidiano simples e a sobrevivência em meio à violência urbana, Ice Cube estampou essa narrativa quase fotográfica e, de repente, esse tipo de música não precisava ser só confronto, mas também observação, narrativa e tempo. O cotidiano também era um discurso político.

Você deve estar pensando como lendas como 2Pac e BIG absorveriam isso naquele momento, talvez o maior do gênero, e isso é claramente perceptível em faixas como Dear Mama, de 2Pac. Por outro lado, a ideia de um cinema falado ficaria explícita em BIG, em faixas como Juicy ou Everyday Struggle.

Depois disso, ficou claro que a rua deixou de ser vitrine e se transformou em discurso, onde o rapper era o personagem principal. A ascensão solo de Dr. Dre e tantos outros colocou o gênero em outro patamar rapidamente. Nas e Snoop Dogg são alguns dos tantos exemplos.

A conexão de Ice Cube com o cinema renderia novos episódios, já que o rapper passou também a produzir material, abraçando esse segmento. Com rap e cinema como partes do mesmo discurso cultural, o último passo foi dado com o diretor Hype Williams, que transformou esse discurso em espetáculo, amplificando ainda mais a mensagem. Um passeio por videoclipes de Missy Elliott e Busta Rhymes dá bem o tom dessa grandiosidade.

Mais de três décadas depois, Ice Cube se tornou uma figura colossal na cultura americana e segue tão ácido quanto nos tempos de N.W.A. A sequência recente dos álbuns Man Down / Man Up expõe bem isso. Em um de seus novos videoclipes, Before the Hip Hop, Ice Cube faz uma reconstrução histórica para deixar claro que o hip hop nunca foi a origem da violência — ele sempre foi o reflexo dela. E isso com uma linguagem de cinema. O resultado é primoroso, e nem é necessário entender inglês para captar a mensagem da música.

Do N.W.A. à carreira solo, Ice Cube ajudou a transformar o rap em narrativa e o videoclipe em cinema. Três décadas depois, a ideia segue a mesma: usar música como memória e imagem como argumento.

Anderson Oliveira

Diretor de Arte há duas décadas, fã de Grateful Dead e Jeff Beck, futuro trompetista e em constante aprendizado. Bem-vindos ao meu mundo, o Mundo de Andy.

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