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Inezita Barroso – A voz que transformou o campo em resistência

11 de novembro de 20254 min read

No auge das luzes e do brilho do rádio na virada do século, uma mulher ergueu a voz em defesa da cultura caipira. Uma década depois, não podemos esquecer que Inezita Barroso transformou a viola em símbolo de resistência e orgulho brasileiro.

Há uma década, o Brasil perdia uma das maiores representantes de sua cultura popular: Inezita Barroso. Passado esse tempo, ainda é difícil medir o tamanho do impacto da violeira na cultura brasileira — mas, para isso, é necessário voltarmos pelo menos sete décadas para entender a dimensão desse legado.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia um momento de transição cultural a pleno vapor. Tratava-se de um processo de urbanização, e o centro cultural era o Rio de Janeiro.

Vivíamos o auge das grandes orquestras e da busca por uma modernidade que refletisse um país ansioso por deixar o Brasil rural para trás. A música popular embalava-se ao som do samba-canção, das vozes glamorosas e dos auditórios da Rádio Nacional. E foi justamente nesse cenário, dominado pelo brilho e pela sofisticação urbana, que surgiu Inezita Barroso.

Formada em Biblioteconomia pela USP, nunca escondeu que o amor pelos livros veio antes do amor pelos palcos. Mas foi nos palcos que fez história, quando estreou na TV em 1951, apenas um ano após a fundação da TV Tupi. Era a primeira mulher a cantar música caipira em rede nacional — e é aí que começa uma das mais fabulosas histórias da cultura brasileira.

Inezita nunca escondeu a paixão pelo povo e pelo amor profundo à cultura popular. Quebrou todos os tabus possíveis ao abordar temas sensíveis, ser censurada pela ditadura e demonstrar horror ao rótulo de “música sertaneja”, que há décadas acusava de se distanciar de suas origens. Sempre preferiu as expressões “música caipira de raiz” ou “música de raiz”.

Que fique claro: Inezita não foi a primeira mulher a fazer música caipira, mas foi pioneira ao tornar o gênero popular — mais ou menos como Patsy Montana fez na música country americana, com a diferença de que lá já existia, havia décadas, uma indústria consolidada. Já aqui, a música caipira era totalmente marginalizada até aquele momento.

O primeiro sucesso da carreira de Inezita, “Marvada Pinga”, só veio em 1953, transformando-se em um clássico do cancioneiro popular. E, a partir daí, histórias — ou causos — permearam uma obra de mais de 60 discos lançados até sua morte, em 2015. Durante a vida, gravou com inúmeros artistas de diversas gerações, sempre estimulando esse intercâmbio para manter viva a música que se dedicou a preservar. Foi professora e pesquisadora do folclore nacional, levando grande parte desse conhecimento para o palco do programa Viola, Minha Viola, que apresentou por 35 anos na TV Cultura.

Chamada de “Rainha da Música Caipira” por Chico Buarque e Maria Bethânia, Inezita deixou uma história que até mesmo seus maiores fãs ainda lutam para encontrar. Seja nos palcos, nas bibliotecas ou nas mercearias dos rincões do país, o legado de Inezita segue vivo, exaltando o que há de mais puro no Brasil profundo.

Anderson Oliveira

Diretor de Arte há duas décadas, fã de Grateful Dead e Jeff Beck, futuro trompetista e em constante aprendizado. Bem-vindos ao meu mundo, o Mundo de Andy.

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