Do legado de Benny Goodman ao groove global de Snarky Puppy, Jacob Collier e Kamasi Washington: como o jazz reencontrou as multidões no século XXI.
Eles são jovens, descolados e fazem uma música de alta complexidade. Porém, arrebatam multidões e absorvem influências impensáveis, que fariam qualquer jazzista mais purista subir pelas paredes. Donos de números expressivos nas plataformas digitais e representando um momento de inovação, os headliners escalados para o Palco Square no The Town simbolizam perfeitamente uma revolução no jazz do século XXI, abandonando os bares e se apresentando para multidões, realizando um verdadeiro “Jazz de Arena”.
Mais que analisar tecnicamente o que cada um desses artistas possui em comum, é necessário pensar em como o jazz um dia foi tão conectado com o público jovem e, ao longo das décadas, acabou se fechando em um nicho cada vez mais sisudo e até certo ponto arrogante.
Primeira faixa a estampar um ranking de “Mais ouvidas” na história das rádios americanas, Sing Sing Sing, de Benny Goodman, embalou pistas de dança especialmente no período da Segunda Guerra Mundial, sendo fundamental no período mais tenso da humanidade.
Com a segunda metade do século, vertentes como o bebop levaram o gênero para uma atmosfera mais intimista — um fenômeno rompido somente com a geração de Herbie Hancock e a ascensão de seu Headhunters, quando passou a flertar de forma mais clara com a música pop, ou até Miles Davis (em sua fase elétrica), quando se apresentou em espaços maiores. Não por acaso, essa fase é renegada por parte de seu público mais conservador.
Chegamos a 2025 e fica claro o que faz de Jacob Collier, Kamasi Washington e Snarky Puppy verdadeiros fenômenos do jazz contemporâneo. Mais que devotos do gênero que os abraça, cada um desses artistas possui em sua essência um combo que mistura funk, soul, música latina, hip-hop e, especialmente, música pop.
No caso de Kamasi Washington, estamos falando de uma capacidade ímpar de transformar o jazz espiritual em escala sinfônica. Não é para qualquer um. E ao levar sua música para multidões, nenhum dos citados sequer esbarra na ideia de uma música supérflua.
E é aqui que chegamos. Ainda que não exista formalmente, a expressão “Jazz de Arena” mostra bem que cada um desses shows não é somente algo para ser contemplado. Ao encerrarem cada dia em um festival gigante como o The Town, a garantia que o público terá é a de não encontrar um espetáculo “parado” e hermético, mas algo grande, vibrante e feito para a massa — tudo isso abraçado inteiramente pelo jazz. Um verdadeiro espetáculo popular, tal qual Benny Goodman realizou nos anos 40.
Fique de olho: autêntico coletivo, o Snarky Puppy é uma verdadeira explosão de ritmos ao vivo e chega a se apresentar com até 25 músicos no palco. Seus álbuns Family Dinner e Sylva são um bom reflexo de como a música se transforma em uma experiência coletiva e não em relatório para críticos.
Isso vale para Kamasi Washington também, assim como para Jacob Collier, que consegue transformar a complexidade do jazz em algo acessível.
Programado para ser realizado nas primeiras semanas de setembro, o tão criticado The Town esconde atrações que representam um ponto importante na história da música. Ao lado de colossos nacionais como João Bosco e Alaíde Costa, o Palco Square é uma opção certeira para quem celebra a música e sua capacidade de evoluir e se adaptar aos mais variados espaços.





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