No C6 Fest 2026, o duo de Los Angeles mostra como técnica, groove e ironia podem coexistir em uma das experiências mais físicas do festival.
Em um line up recheado de artistas como Robert Plant, The XX e o vocalista do The National, Matt Berninger, não é de surpreender que alguns nomes acabem passando com menor destaque — algo que não pretendemos fazer por aqui. Um deles, nessa fusão de ritmos que o festival visa promover, merece atenção especial. Trata-se do KNOWER, duo formado pela cantora e tecladista Genevieve Artadi e pelo baterista e produtor Louis Cole.
Formado em 2010, o KNOWER funciona como um autêntico laboratório musical, onde Louis Cole se divide em estúdio entre baixo, bateria, guitarra, teclados, programações e até alguns vocais. Já Genevieve atua como a ponta de um funil que une performance e vocais extremamente dançantes, fazendo com que funk, jazz e música eletrônica coexistam da forma mais caótica — e curiosamente coerente — possível.
Com cinco discos lançados, sendo o mais recente Knower Forever (2023), a dupla soa dançante na mesma medida em que explora arranjos complexos, sem se apoiar exclusivamente em elementos eletrônicos para provocar movimento. O resultado lembra, em espírito, uma versão mais intensa e caótica do Pizzicato Five, duo japonês que ganhou destaque nos anos 1990 ao unir sofisticação pop, ironia e groove.
Mas o que realmente diferencia o KNOWER de outros nomes é a forma como tudo isso ganha corpo no palco, com uma formação ampliada e repleta de excelentes músicos. Ao reforçar essa atmosfera orgânica — e carregada de ironia — o show se transforma em uma experiência imperdível para quem pretende aproveitar cada atração do festival. É como assistir a um coletivo afiado de músicos de jazz e funk imerso em uma estética dançante. Ainda é jazz, mas feito por quem parece pouco preocupado com rótulos e muito mais interessado em se divertir.
Na tentativa de furar a bolha alternativa, a dupla apostou no álbum mais recente em uma estética que deixa clara sua paixão pelo jazz, especialmente pela bateria e pelo piano. Em alguns momentos, a sonoridade flerta com o espírito de big band, com Louis Cole se destacando à bateria enquanto abre espaço para melodias que soam como trilhas de videogame. Basta ouvir a sequência “It’s All Nothing Until It’s Everything” e “Nightmare” para entender que, no universo do KNOWER, tudo é possível — exceto a rigidez.
Escalado para o dia 21 de maio, ao lado de Brandee Younger e da Hermeto Pascoal Big Band, o KNOWER tem tudo para encerrar a noite com chave de ouro, mostrando que o jazz talvez nunca tenha estado tão aberto a novos elementos quanto em sua obra — ainda que isso não soe exatamente confortável para os jazzistas mais ortodoxos. Mas em um festival que se propõe a provocar encontros improváveis, a dupla surge como um lembrete de que o jazz não precisa se reinventar — basta parar de se explicar.





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