Em Elipsis, Michael League desloca o eixo do jazz do Norte atlântico para o Sul global, tratando África, Caribe e Américas negras como centro estético — não como influência periférica.
Um dos nomes mais prolíficos do jazz contemporâneo, o bandleader do coletivo pluralizado Snarky Puppy, Michael League, transformou o jazz de grupo em uma experiência verdadeiramente global e comunitária, explorando caminhos que hoje sobrevivem mais nos pequenos clubes do que nos grandes palcos. Em seu novo álbum solo, Elipsis, o multi-instrumentista americano sugere que o jazz pensado a partir do hemisfério Sul — África, Caribe e Américas negras — pode soar ainda mais intrigante, livre e sem fronteiras.
Verdadeiro colecionador de Grammys, Michael League trouxe para seu novo projeto músicos que, em muitos contextos do hemisfério Norte, ainda seriam rotulados como artistas de “world music”, especialmente nos Estados Unidos. Acompanhado de Pedrito Martinez, percussionista e vocalista cubano, e do baterista Antonio Sánchez, o disco apresenta faixas de clara influência latina — mas não se trata de salsa ou samba. Estamos falando de ritmos afro-cubanos e caribenhos, aliados a um trabalho de percussão de matriz africana.
Para quem ignora tais distinções, basta imaginar que o disco de Michael League se aproxima mais da atmosfera de uma trilha como O Rei Leão do que do bebop americano. Nos acostumamos tanto a perceber esse tipo de música sob moldes americanos ou europeus que qualquer mergulho mais técnico nos transporta para uma paisagem sonora distante dos grandes centros. Aqui, Michael League propõe o caminho inverso.
São apenas seis músicas e pouco mais de meia hora de duração, mas o álbum parece muito mais extenso em sua proposta. Da introdução de “Obbakoso” aos últimos trechos de “Congo no Calla”, Elipsis defende uma música verdadeiramente global, cuja raiz não está nos chamados grandes centros. A diáspora africana e latina ocupa o primeiro plano. Nesse processo, o próprio protagonista se torna quase coadjuvante diante de músicos que carregam no corpo e na tradição influências muito distintas das suas.
Fazendo uma analogia, a experiência do bandleader do Snarky Puppy em Elipsis lembra as incursões de Andy Summers (The Police) pela bossa nova. A diferença é que, no caso do guitarrista inglês, tratava-se de uma sonoridade já familiar ao ouvido ocidental. Em Elipsis, tudo soa novo, estranho e libertador — e talvez aí resida sua maior importância.
Cada vez mais empenhado em extrapolar os limites do jazz e de seus próprios instrumentos, Michael League apresenta faixas difíceis de se esgotar na escuta. “Caminando”, “Variant” e “Sururu” nascem para ser mais do que exercícios de influência caribenha ou africana: afirmam-se como música do mundo.





What do you think?
Show comments / Leave a comment