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Since I Left You: o disco que não deveria existir

16 de dezembro de 20255 min read

Pensado como um filme, montado a partir de mais de 3.500 samples e uma ideia obsessiva na cabeça, o disco de estreia do coletivo australiano completa 25 anos como uma das obras mais criativas deste século — um lembrete poderoso de que, mesmo em tempos de inteligência artificial, nada supera a mente humana.

Em tempos de IA, prompts desenhados por aplicativos e música artificial, celebrar o aniversário de um disco tão humano é, de longe, motivo para exaltação. Lançado na virada do século, Since I Left You, disco de estreia do trio australiano The Avalanches, segue até hoje desafiando a lógica pela forma como foi construído. E em tempos em que a música beira a artificialidade, sempre vale a pena dar o play no disco e reforçar a ideia de que música ainda é algo 100% humano.

Formado nos anos 90 por Robbie Chater, Darren Seltmann-Levine e Tony Di Blasi, em Melbourne, o The Avalanches tinha nas mãos uma ideia: fundir sua paixão pelo garimpo de discos antigos com a vivência no hip-hop, na música eletrônica e em toda a cultura de DJs.

Mais que uma banda de estúdio, o The Avalanches (sim, o nome derivava da avalanche de sons que o trio produzia) funcionava mais como um grupo de vários produtores que seguia, em suas apresentações, a máxima de “escutar muito → recortar → testar em festa → reconstruir depois”. Tratava-se de uma música mutável, num momento em que a música mundial colhia os ecos do britpop e se preparava para um furacão na virada do século. O respeito local já existia, mas tudo acontecia e desaparecia quando desligavam o toca-discos. Era hora de produzir algo palpável — e é diante desse cenário que nasceu seu disco de estreia. Assim nasceu Since I Left You.

Sem instrumentos musicais, sem limite de samples, sem preocupação com singles e com o foco em pensar a música como uma memória sonora única, o The Avalanches passou meses trancado em meio a pilhas de vinil, fitas, samples nomeados de forma confusa e ideias que levavam meses para se encaixar. Faixas nasceram, morreram e se remodelaram completamente diferentes.

Pensar isso hoje, com tantos softwares de edição, parece uma tarefa um pouco menos inglória — mas imagine isso na virada do século. Em seu estúdio, a ferramenta vital para tudo isso era um sampler Akai S2000, uma máquina com memória minúscula para os padrões atuais. Isso obrigava cada sample a ser curto, preciso e essencial. Assim, o processo se dividia em recortar microssegundos de som, comprimir ao máximo, apagar o que não funcionava e empilhar as camadas. Trabalhão…

O resultado acabou sendo um trabalho em que cada recorte se tornava impossível de ser identificado — mas nem precisava. Como uma bela colcha de retalhos, o disco era uma única peça criada a partir de limitações técnicas. Since I Left You não era futurista, muito menos retrô. Era apenas atemporal.

Pensar o mundo da música — em especial o do hip-hop e o da música eletrônica — após esse disco mostra que a mente humana sempre vai ser maior que a máquina. De forma inovadora, o The Avalanches mostrou que sample não precisa ser citação, mas linguagem.

Essa técnica, embora tenha ganhado uma projeção diferente nas mãos dos australianos, não foi pioneira. Quatro anos antes, DJ Shadow já abria uma trilha de introspecção com o hip-hop instrumental do seminal Endtroducing. Nomes que não podem deixar de ser citados são Boards of Canada, Burial, Girl Talk e até o produtor alemão DJ Koze — veterano, mas que alcançou projeção mundial apenas poucos anos atrás, quando estampou “Pick Up” nos charts.

Since I Left You envelheceu melhor do que quase todos os discos sampleados da época, mas a grande lição deixada por ele, ao lado de todos os nomes citados acima, segue sendo a forma como a mente humana é capaz de produzir algo extremamente emotivo e intenso sem a ajuda da máquina — ou melhor, controlando tudo o que tiver em mãos.

Anderson Oliveira

Diretor de Arte há duas décadas, fã de Grateful Dead e Jeff Beck, futuro trompetista e em constante aprendizado. Bem-vindos ao meu mundo, o Mundo de Andy.

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